Por
Prof. Valdir Correa (Vavá)
Noite fria. Willian Bonner e Fátima Bernardes (casal moderno, ela não assina o sobrenome do maridão; ou são nomes de “fantasia”...) anunciam, com tom de preocupação, que mais um atentado aconteceu. Fanáticos religiosos islâmicos explodem não sei o quê... As vítimas são contadas em três dígitos... “-E agora, o futebol.”.. Típico...
Coloco-me a pensar na motivação destes fanáticos. O que querem? Por que chegam ao extremo de matar pelo seu “deus” (recuso-me a escrever esse “deus” com inicial maiúscula...)?
Conversão... Esta é a palavra que motiva as religiões. Quanto mais pessoas se converterem a determinada religião, mais poder ela terá (religiões vivem de poder, em suas diversas possibilidades – financeira, social, psicológica!). Ora, converter alguém não é tarefa muito fácil. Não adianta usar de lógica, pois a fé não é ciência. Podemos usar de uma boa argumentação, principalmente se o outro for alguém sem muito acesso à cultura (a proliferação dos “evangélicos” mostra isso). Diante desse quadro, a conversão dos infiéis torna-se algo impossível. E , se não podem ser convertidos, que sejam eliminados! Esta é a visão de um fanático religioso.
Na escola, falamos muito em respeitar a opção religiosa dos nossos estudantes. Mas será que respeitamos mesmo?
Um teste simples... Queremos converter nossos estudantes? Temos o anseio de que eles mudem suas crenças religiosas e passem a seguir a nossa? Caso a resposta seja sim, lamento: não estamos respeitando a opção que ele fez! Podemos até aceitar a opção dele, mas respeitar vai muito além disso. Respeitar implica em não se colocar num degrau superior (se quero que você pense como eu é porque acredito que meu pensamento seja melhor que o seu...). Respeitar está intimamente ligado com a equidade nas relações. Dizer que a religião “x” (usando a linguagem matemática...) é melhor do que a religião “y” é um ato de fanatismo religioso. Quem não segue tal religião está perdido. Nem o diabo o aceitará... Dessas ideias nasce o fanático que não se contenta em argumentar: ele precisa matar...
Li, certa vez, uma frase muito interessante. Dizia: “A melhor religião é aquela que torna cada ser humano melhor.” Não sei bem se foi proferida por Gandhi ou por Buda. Tanto faz. Frases assim, pela profundidade, tornam-se de propriedade de todos os homens.. Mas é isso! Deixemos cada um seguir seu caminho religioso. Abaixo à conversão repressiva, obrigatória. Quer converter alguém? Viva bem. Dê bons exemplos. Seja verdadeiro em suas convicções. Desperte admiração. Esta sim, a forma mais humana e divina de converter alguém...
Terça-feira, 23 de Junho de 2009
Quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Barba Negra
Pirataria é crime...
É crime e também assunto delicado.
Eu, pessoalmente, não gosto e não costumo consumir produtos pirateados (não vou dizer que nunca consumi porque não sou hipócrita). Acho um problema sério as condições de trabalho das pessoas envolvidas com a pirataria, acho complicado a questão de emprego/desemprego que gera, acho horríveis os perigos que um tênis, um óculos ou remédios falsos podem causar e sim, me preocupa a estabilidade da economia nacional (ainda que ache um exagero pensar na pirataria como único desistabilizador da economia, mas enfim).
Mas acho absurdo também os impostos e preços abusivos que existem em relação a determinados produtos ditos "de qualidade". A pirataria é produto de uma sociedade que determina o que a pessoa é pelo que ela pode consumir (isso não é novo...é só lembrar do vídeo "A história das Coisas...se não viu, tem no youtube). Somos, muitas vezes, classificados pelo que possuímos e quem não pode possuir se sente, consequentemente, desclassificado.
A pirataria, para alguns, acaba sendo uma possibilidade de inserção nesse meio doentio...
Veja bem, não estou defendendo a pirataria. Estou dizendo que a questão é muito mais complicada do que: "Pirataria é crime porque a lei diz que não pode." Ou "não compre produto pirata porque não pagam impostos pro governo". Na atual conjuntura isso soa como piada. Acho bastante legítima uma campanha contra a pirataria, mas penso que ela deveria ser acompanhada de ações sérias como moralização política, reavaliação de impostos e quaisquer outras atitudes que ajudassem a diminuir a imensa disparidade social que existe no Brasil e que, obviamente incitam o consumo de produtos piratas...
Afinal não é todo mundo que pode pagar 500 por um Mizuno, 790 por um óculos Tom Ford, 300 por um traje esporte da Adidas, 1500 por uma bolsa Victor Hugo e assim por diante...
É crime e também assunto delicado.
Eu, pessoalmente, não gosto e não costumo consumir produtos pirateados (não vou dizer que nunca consumi porque não sou hipócrita). Acho um problema sério as condições de trabalho das pessoas envolvidas com a pirataria, acho complicado a questão de emprego/desemprego que gera, acho horríveis os perigos que um tênis, um óculos ou remédios falsos podem causar e sim, me preocupa a estabilidade da economia nacional (ainda que ache um exagero pensar na pirataria como único desistabilizador da economia, mas enfim).
Mas acho absurdo também os impostos e preços abusivos que existem em relação a determinados produtos ditos "de qualidade". A pirataria é produto de uma sociedade que determina o que a pessoa é pelo que ela pode consumir (isso não é novo...é só lembrar do vídeo "A história das Coisas...se não viu, tem no youtube). Somos, muitas vezes, classificados pelo que possuímos e quem não pode possuir se sente, consequentemente, desclassificado.
A pirataria, para alguns, acaba sendo uma possibilidade de inserção nesse meio doentio...
Veja bem, não estou defendendo a pirataria. Estou dizendo que a questão é muito mais complicada do que: "Pirataria é crime porque a lei diz que não pode." Ou "não compre produto pirata porque não pagam impostos pro governo". Na atual conjuntura isso soa como piada. Acho bastante legítima uma campanha contra a pirataria, mas penso que ela deveria ser acompanhada de ações sérias como moralização política, reavaliação de impostos e quaisquer outras atitudes que ajudassem a diminuir a imensa disparidade social que existe no Brasil e que, obviamente incitam o consumo de produtos piratas...
Afinal não é todo mundo que pode pagar 500 por um Mizuno, 790 por um óculos Tom Ford, 300 por um traje esporte da Adidas, 1500 por uma bolsa Victor Hugo e assim por diante...
Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Le silence...
Bem...
Quase dois anos sem postar... mas como dizem que o bom filho à casa torna, cá estou...
Todo o tempo de silêncio não teve motivo especial... talvez o fato de não ter motivo especial tenha gerado o silêncio, afinal... o que somos sem motivação?
Falando em motivação...
Depois que o Vavá (o elemento motivador em questão) sugeriu a discussão sobre o Estatuto Racial, eu fui incitada a criar esse post. Lendo sobre o tema na internet encontro a seguinte peróla :
"A medida provisória e o Estatuto em estudos poderão adotar dispositivos já incluídos no edital divulgado pela UnB na semana passada, reservando 20% das vagas para o sistema de cotas. Um deles é a exigência de fotografia dos candidatos ao vestibular para evitar fraudes, já que a condição de negro será auto-declaratória." ( O Globo)
Coisas que não entendo:
Fotos para evitar fraude já que a CONDIÇÃO de negro é auto-declaratória? Como assim, condição? Desculpem a ignorância, mas uma condição é mutável, não? E outra... A foto é que vai evitar fraudes? Então a gente volta para o visual, para a cor da pele como elemento determinante? Isso era bem recorrente há 500 anos!!!!!
No próprio Estatuto, lá no comecinho diz: "§ 1o Para efeito deste Estatuto, considera-se discriminação racial toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça,
cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro
campo da vida pública."
As próprias propostas de cotização, acesso ao serviço público e coisas do tipo, ao invés de resolverem o problema da discriminação, ao meu ver, reforçam uma questão segregacional!!!!
Parece um tentativa de "corrigir os erros do passado" (expressão de efeito!) incitando um problema ainda maior...
Por que não a valorização intelectual? Por que não possibilitar o acesso a uma educação pública e de qualidade? Por que não repensar as formas de acesso às universidades (coisa que está sendo feita) e aos cargos públicos (apadrinhamento existe ainda?)?
Paliativos não constroem justiça social...
É obvio que a questão racial no Brasil é presente... é historicamente presente e problemática, porém está atrelada a uma outra que é a social... Este estatuto soa como uma tentativa de apaziguar ânimos e legar ao social espaço secundário...
Que acham?
Quase dois anos sem postar... mas como dizem que o bom filho à casa torna, cá estou...
Todo o tempo de silêncio não teve motivo especial... talvez o fato de não ter motivo especial tenha gerado o silêncio, afinal... o que somos sem motivação?
Falando em motivação...
Depois que o Vavá (o elemento motivador em questão) sugeriu a discussão sobre o Estatuto Racial, eu fui incitada a criar esse post. Lendo sobre o tema na internet encontro a seguinte peróla :
"A medida provisória e o Estatuto em estudos poderão adotar dispositivos já incluídos no edital divulgado pela UnB na semana passada, reservando 20% das vagas para o sistema de cotas. Um deles é a exigência de fotografia dos candidatos ao vestibular para evitar fraudes, já que a condição de negro será auto-declaratória." ( O Globo)
Coisas que não entendo:
Fotos para evitar fraude já que a CONDIÇÃO de negro é auto-declaratória? Como assim, condição? Desculpem a ignorância, mas uma condição é mutável, não? E outra... A foto é que vai evitar fraudes? Então a gente volta para o visual, para a cor da pele como elemento determinante? Isso era bem recorrente há 500 anos!!!!!
No próprio Estatuto, lá no comecinho diz: "§ 1o Para efeito deste Estatuto, considera-se discriminação racial toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça,
cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro
campo da vida pública."
As próprias propostas de cotização, acesso ao serviço público e coisas do tipo, ao invés de resolverem o problema da discriminação, ao meu ver, reforçam uma questão segregacional!!!!
Parece um tentativa de "corrigir os erros do passado" (expressão de efeito!) incitando um problema ainda maior...
Por que não a valorização intelectual? Por que não possibilitar o acesso a uma educação pública e de qualidade? Por que não repensar as formas de acesso às universidades (coisa que está sendo feita) e aos cargos públicos (apadrinhamento existe ainda?)?
Paliativos não constroem justiça social...
É obvio que a questão racial no Brasil é presente... é historicamente presente e problemática, porém está atrelada a uma outra que é a social... Este estatuto soa como uma tentativa de apaziguar ânimos e legar ao social espaço secundário...
Que acham?
Sábado, 28 de Julho de 2007
F. P. de cancêr...
.
.
.
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe,
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
.
.
.
Fernando Pessoa era canceriano... só pode...
.
.
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe,
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
.
.
.
Fernando Pessoa era canceriano... só pode...
Quarta-feira, 18 de Julho de 2007
Inferno...

Inferno:
- Do latim infernum, cujo significado etimológico pode ser compreendido por: “que está embaixo” ou “inferior”. Possui como variações: “as profundezas da terra”, “regiões inferiores” ou “das sombras”. Seu uso, no português medieval, data do século XIII, e, para os cristãos, costuma representar o lugar ou situação pessoal em que as almas pecadoras se encontram após a morte, submetidas a penas eternas. Dante Alighieri, ao longo de sua Divina Comédia, estabelece uma cartografia deste espaço de purgações a partir da hierarquização das fraquezas humanas da carne e do espírito. Divide seu inferno em nove níveis, onde a intensidade do horror é concernente à gravidade do pecado. O descreve como lugar lúgubre, de luxúrias e corpos lassos. Morada de hereges que ardem em fogo e de assassinos que cozinham em um rio de sangue fervente. Discorre sobre florestas escuras e sem trilhas, onde falanges de suicidas crescem por toda a eternidade compondo espinheirais tortos e peçonhentos. As harpias, monstros de imensas asas, barrigas emplumadas, rostos humanos e garras talhantes, aninham-se nestas árvores atrofiadas e mordiscam suas folhas. Ao longo das florestas, ouvem-se apenas lamúrias. No último nível, a temível morada de Lúcifer, o pior dos pecados, a traição, tem por pena a prisão, a impotência e a imobilidade eterna em espaço gélido e intocado por qualquer vestígio de luz ou calor. Lugar sinistro, feral e apavorante. Infernal. Sandro Boticelli e Willian Blake, entre outros, dedicaram-se a recriar em tintas e pena os cantos de Alighieri. Somos, hodiernamente, revisitados por tais representações de tormento e dor...
Primeiro parágrafo do primeiro capítulo da minha primeira dissertação de mestrado... =)
Sexta-feira, 13 de Julho de 2007
Sobre jardins e flores...
Não! Esta não é uma idéia original. Na verdade, é uma descarada e assumida apropriação. Não chega a ser uma cópia, mas uma reelaboração sobre a idéia de outrem. Se me aproprio, no entanto, não é por incompetência ou comodismo, mas por concordância e admiração. Até porque não sei até que ponto é possível uma idéia original e revolucionaria. A “metáfora perfeita”. Não pensamos, afinal, a partir de coisas e elementos já pensados outrora? Seja como for, pensando pensamentos originais ou pensando pensamentos já pensados, não é a isto que me proponho no momento. Poderia, é claro, alongar-me por algumas páginas e tentar descobrir a essência da famigerada originalidade. No entanto tal empreitada seria demasiado pretensiosa e despropositada. Falemos, portanto, dos jardins.
Como são belos os jardins! Floridos, coloridos, vivos... Não falo de meros canteiros com flores iguais, equiparadas, controladas, mas de jardins impressionistas, como aqueles sagazmente retratados pelas pinceladas de Monet ou Renoir. Desiguais, disformes e impressionantemente belos. Creio que a beleza deles advenha exatamente da disformidade. Da ausência de uma métrica específica. Da diferença. Eis a palavra que buscava. Eis a palavra que me levará dos jardins à sala de aula. Diferença!
A sala de aula muito me lembra um jardim. Não sou a primeira a fazer esta constatação. Rubem Alves já o fez e, certamente, alguém o precedeu. Mas façamos de novo. Os jardins são muitos, as salas de aulas, incontáveis, e as reflexões possíveis multiplicam-se a cada novo olhar.
Na matriz curricular dos cursos de história deveria existir uma disciplina referente à prática da jardinagem. Técnicas de cultivo, plantio, cuidados específicos e quaisquer outros elementos que auxiliassem na manutenção de flores e folhagens. Digo isto porque estar em sala de aula como professora de história é, para mim, equivalente a cuidar de um jardim.
O que um jardineiro faz em um jardim? Antes de tudo ele planta. Está certo que muitas vezes as sementes são cuidadosamente escolhidas, mas não há como ter segurança em relação às flores que brotarão. Nenhuma flor é igual. Coloração, formato, perfume...Mesmo que as diferenças sejam sutis, elas existem. Isso sem falar nos diferentes tipos de flores que encontramos em um jardim. Orquídeas, rosas, tulipas, bromélias, flores do campo entre outras. Um bom jardineiro deve saber que a quantidade de calor, água, luminosidade nunca é a mesma, varia sempre, e que se faz necessário extremo cuidado e sensibilidade para que parte do jardim não desfaleça.
O que faz o professor de história em sala de aula? Planta idéias. E só. Não traz verdades. Apenas planta idéias sem a segurança de resultados – se resultarem em algo. Isso porque os alunos, assim como as flores, nunca são iguais. E voltamos à diferença. Negros, brancos, pardos, gordos, magros, inteligentes, malandros, dedicados, desleixados, ricos, pobres... Estereótipos. Apenas estereótipos que superlativizam idiossincrasias e especificidades. Escracham a diferença, transformando-a em motivo de piada. Inibem potenciais e reforçam ainda mais aquilo que é visto como “problema”. O que entristece ainda mais é o fato de que quem atribui, constrói e reforça os estereótipos são, não raro, os próprios professores de história. Talvez por não terem aulas de jardinagem em seus cursos de formação.
Pois bem, lidar com a diferença em sala de aula não é, amiúde, tarefa simples. Passará a ser, no entanto, quando diferença deixar de ser sinônimo de problema. Quando falo de uma tarefa simples, não quero dizer simplista. Entenda-se simples no sentido de que se trata de uma prática hodierna que é dinâmica. Não necessita de complexas elucubrações. Clama sim por inusitadas reflexões. A tarefa, em si, pode ser simples – ao menos acredito nisto. Pode ser tão simples quanto cuidar de um jardim.
Em um jardim, são exatamente as peculiaridades que compõe e determinam beleza de cada flor. Um conjunto dessas peculiaridades forma, destarte, um belo jardim. E por que a sala de aula não pode ser encarada da mesma forma? Por que a diferença não pode ser ressaltada de forma a contribuir no processo educativo como um componente a ser valorizado, e não velado, transformado em tabu? Em um jardim, não se ressalta o perfume de uma orquídea em detrimento da tulipa. Por que, então, a necessidade de classificar alunos como melhores ou piores? Por que a necessidade de quantificá-los em notas (5.0, 7.0, 10.0) e transformar as notas em caráter identitário, como se a mesma representasse exatamente aquilo que o aluno é? E ainda que fosse possível saber exatamente aquilo que o aluno é, por que aprisioná-lo em um conceito? Qual o problema em compreender as pessoas como múltiplas? Por que não trabalhar exatamente esta multiplicidade?
Respostas...Não tenho... Resta-me apenas voltar ao início e preparar algumas sementes...
Como são belos os jardins! Floridos, coloridos, vivos... Não falo de meros canteiros com flores iguais, equiparadas, controladas, mas de jardins impressionistas, como aqueles sagazmente retratados pelas pinceladas de Monet ou Renoir. Desiguais, disformes e impressionantemente belos. Creio que a beleza deles advenha exatamente da disformidade. Da ausência de uma métrica específica. Da diferença. Eis a palavra que buscava. Eis a palavra que me levará dos jardins à sala de aula. Diferença!
A sala de aula muito me lembra um jardim. Não sou a primeira a fazer esta constatação. Rubem Alves já o fez e, certamente, alguém o precedeu. Mas façamos de novo. Os jardins são muitos, as salas de aulas, incontáveis, e as reflexões possíveis multiplicam-se a cada novo olhar.
Na matriz curricular dos cursos de história deveria existir uma disciplina referente à prática da jardinagem. Técnicas de cultivo, plantio, cuidados específicos e quaisquer outros elementos que auxiliassem na manutenção de flores e folhagens. Digo isto porque estar em sala de aula como professora de história é, para mim, equivalente a cuidar de um jardim.
O que um jardineiro faz em um jardim? Antes de tudo ele planta. Está certo que muitas vezes as sementes são cuidadosamente escolhidas, mas não há como ter segurança em relação às flores que brotarão. Nenhuma flor é igual. Coloração, formato, perfume...Mesmo que as diferenças sejam sutis, elas existem. Isso sem falar nos diferentes tipos de flores que encontramos em um jardim. Orquídeas, rosas, tulipas, bromélias, flores do campo entre outras. Um bom jardineiro deve saber que a quantidade de calor, água, luminosidade nunca é a mesma, varia sempre, e que se faz necessário extremo cuidado e sensibilidade para que parte do jardim não desfaleça.
O que faz o professor de história em sala de aula? Planta idéias. E só. Não traz verdades. Apenas planta idéias sem a segurança de resultados – se resultarem em algo. Isso porque os alunos, assim como as flores, nunca são iguais. E voltamos à diferença. Negros, brancos, pardos, gordos, magros, inteligentes, malandros, dedicados, desleixados, ricos, pobres... Estereótipos. Apenas estereótipos que superlativizam idiossincrasias e especificidades. Escracham a diferença, transformando-a em motivo de piada. Inibem potenciais e reforçam ainda mais aquilo que é visto como “problema”. O que entristece ainda mais é o fato de que quem atribui, constrói e reforça os estereótipos são, não raro, os próprios professores de história. Talvez por não terem aulas de jardinagem em seus cursos de formação.
Pois bem, lidar com a diferença em sala de aula não é, amiúde, tarefa simples. Passará a ser, no entanto, quando diferença deixar de ser sinônimo de problema. Quando falo de uma tarefa simples, não quero dizer simplista. Entenda-se simples no sentido de que se trata de uma prática hodierna que é dinâmica. Não necessita de complexas elucubrações. Clama sim por inusitadas reflexões. A tarefa, em si, pode ser simples – ao menos acredito nisto. Pode ser tão simples quanto cuidar de um jardim.
Em um jardim, são exatamente as peculiaridades que compõe e determinam beleza de cada flor. Um conjunto dessas peculiaridades forma, destarte, um belo jardim. E por que a sala de aula não pode ser encarada da mesma forma? Por que a diferença não pode ser ressaltada de forma a contribuir no processo educativo como um componente a ser valorizado, e não velado, transformado em tabu? Em um jardim, não se ressalta o perfume de uma orquídea em detrimento da tulipa. Por que, então, a necessidade de classificar alunos como melhores ou piores? Por que a necessidade de quantificá-los em notas (5.0, 7.0, 10.0) e transformar as notas em caráter identitário, como se a mesma representasse exatamente aquilo que o aluno é? E ainda que fosse possível saber exatamente aquilo que o aluno é, por que aprisioná-lo em um conceito? Qual o problema em compreender as pessoas como múltiplas? Por que não trabalhar exatamente esta multiplicidade?
Respostas...Não tenho... Resta-me apenas voltar ao início e preparar algumas sementes...
Terça-feira, 10 de Julho de 2007
A pessoa mais incrível que jamais conheci.
A pessoa mais incrível que jamais conheci.
A um amigo em potência.
Sim. Nunca conversamos. Em termos, na verdade. Vi, ouvi e sei que, certamente, é uma das pessoas mais incríveis que jamais conheci. Como voyeur, deleito-me no interstício, no hiato inapreensivelmente grande que surge, de súbito, em um instante. Paradoxal por conceito, porém vívido além da palavra ou antes dela. De súbito também aparecem devires. Assuntos, temores, temas, tramas e traumas que existem apenas em potência.
Como sei que esta, logo esta que não me sabe, é a pessoa mais incrível que jamais conheci? Explico. Trata-se daqueles que gostamos, ainda que não o tenhamos encontrado, mas reconhecido entre tantos outros como ente querido. Segundos são suficientes. A pessoa mais incrível pode, de fato, ser um conhecido. Ser aquele que cumprimentamos com um opaco aceno ou pelo qual passamos cegos, ofuscados em busca do fantástico. Pode também ter (ser) passado, apressado, desinteressado, elencando pessoas incríveis, inatingíveis, inexistentes. Manifestações únicas de desejo. Devires, uma vez mais.
A pessoa mais incrível que jamais conheci não me conhece, todavia. Talvez nem queira conhecer e isso gera a angustiante sensação de impotência. Como fazer para conhecer, finalmente, a mais incrível pessoa jamais conhecida?
Nada por fazer, apenas ser...
Estar...
Infinitivos na infinita espera pela possibilidade do ínfimo.
Cá estou então, a esperar.
*Em destaque, frase roubada do amigo Victor Taiar.
A um amigo em potência.
Sim. Nunca conversamos. Em termos, na verdade. Vi, ouvi e sei que, certamente, é uma das pessoas mais incríveis que jamais conheci. Como voyeur, deleito-me no interstício, no hiato inapreensivelmente grande que surge, de súbito, em um instante. Paradoxal por conceito, porém vívido além da palavra ou antes dela. De súbito também aparecem devires. Assuntos, temores, temas, tramas e traumas que existem apenas em potência.
Como sei que esta, logo esta que não me sabe, é a pessoa mais incrível que jamais conheci? Explico. Trata-se daqueles que gostamos, ainda que não o tenhamos encontrado, mas reconhecido entre tantos outros como ente querido. Segundos são suficientes. A pessoa mais incrível pode, de fato, ser um conhecido. Ser aquele que cumprimentamos com um opaco aceno ou pelo qual passamos cegos, ofuscados em busca do fantástico. Pode também ter (ser) passado, apressado, desinteressado, elencando pessoas incríveis, inatingíveis, inexistentes. Manifestações únicas de desejo. Devires, uma vez mais.
A pessoa mais incrível que jamais conheci não me conhece, todavia. Talvez nem queira conhecer e isso gera a angustiante sensação de impotência. Como fazer para conhecer, finalmente, a mais incrível pessoa jamais conhecida?
Nada por fazer, apenas ser...
Estar...
Infinitivos na infinita espera pela possibilidade do ínfimo.
Cá estou então, a esperar.
*Em destaque, frase roubada do amigo Victor Taiar.
Domingo, 1 de Julho de 2007
O mundo é uma poesia!
Pois é... acho que vou transformar isso aqui num aglomerado de poesias...
Ninguém lê mesmo, entou vou postá-las apenas para acalentar e massagear meu ego! O Blog é meu, posto o que eu quero...
Algum dia criarei coragem e postarei algo escrito por mim... algum dia.
Segue minha "descoberta" da semana... "Guardar" de Antônio Cícero.
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Bom julho para todas e todos!!!
Ninguém lê mesmo, entou vou postá-las apenas para acalentar e massagear meu ego! O Blog é meu, posto o que eu quero...
Algum dia criarei coragem e postarei algo escrito por mim... algum dia.
Segue minha "descoberta" da semana... "Guardar" de Antônio Cícero.
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Bom julho para todas e todos!!!
Domingo, 3 de Junho de 2007
Delicadeza de elefante em loja de cristal...
Tudo fora do lugar.
Intensidade ficcional não serve.
Felicidade é momento imediatamente presente. Faz-se futuro como projeção do agora e faz-se passado, uma vez que o agora, foi.
Uma hora a gente aprende...(você também!)
Cresci acreditando que gostar das pessoas era algo bom... começo a repensar (e espero não me convencer).
Violoncello (agudo e triste - metáfora linda da Mê).
Ser humano = delicadeza de elefante em loja de cristal.
Sim, realmente há muito ainda por aprender...
Onde estão as bandas de rock progressivo, hein?
Sinto falta da história... (mas aquela de verdade, onde tudo poder ser mentira...ou não.)
Inferno astral, uma pinóia.
Alguém lembra da palavra responsabilidade? Deve haver um sentido, perdido na memória de quem nada vem sentindo. Ou é bom fingidor... Lembra Pessoa:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Pois é...o poeta é um fingidor... finge dor.
Intensidade ficcional não serve.
Felicidade é momento imediatamente presente. Faz-se futuro como projeção do agora e faz-se passado, uma vez que o agora, foi.
Uma hora a gente aprende...(você também!)
Cresci acreditando que gostar das pessoas era algo bom... começo a repensar (e espero não me convencer).
Violoncello (agudo e triste - metáfora linda da Mê).
Ser humano = delicadeza de elefante em loja de cristal.
Sim, realmente há muito ainda por aprender...
Onde estão as bandas de rock progressivo, hein?
Sinto falta da história... (mas aquela de verdade, onde tudo poder ser mentira...ou não.)
Inferno astral, uma pinóia.
Alguém lembra da palavra responsabilidade? Deve haver um sentido, perdido na memória de quem nada vem sentindo. Ou é bom fingidor... Lembra Pessoa:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Pois é...o poeta é um fingidor... finge dor.
Segunda-feira, 14 de Maio de 2007
Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio,
se me amas, podes dizer que não.
Pouco me importa
ser nada à tua volta,
sombra, coisa esgarçada
no entendimento de tua mãe e irmã.
A mim me importa, Dionísio, o que dizes deitado ao meu ouvido
e o que tu dizes nem pode ser cantado
porque é palavra de luta e despudor.
E no meu verso se faria injúria
E no meu quarto se faz verbo de amor.
(Poema V de Ode Descontínua e Remota para flauta e oboé..., de Hilda Hilst - Zeca Baleiro e voz de Ângela Ro Ro)
Um mês sem postar...
O silêncio sempre tem algo a dizer... tento aprender com ele...
se me amas, podes dizer que não.
Pouco me importa
ser nada à tua volta,
sombra, coisa esgarçada
no entendimento de tua mãe e irmã.
A mim me importa, Dionísio, o que dizes deitado ao meu ouvido
e o que tu dizes nem pode ser cantado
porque é palavra de luta e despudor.
E no meu verso se faria injúria
E no meu quarto se faz verbo de amor.
(Poema V de Ode Descontínua e Remota para flauta e oboé..., de Hilda Hilst - Zeca Baleiro e voz de Ângela Ro Ro)
Um mês sem postar...
O silêncio sempre tem algo a dizer... tento aprender com ele...
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